Não creio que eu tenha pensado tanto na conquista do espaço quanto nos últimos meses. Descobre-se que este é um termo tão amplo que nos faz querer saber mais sobre ele em si. Tenho pensado na cidade, na casa e na vida, além do que há além do céu, onde habitam os astronautas.
Invejo muito as cidades feitas para andar a pé. O prazer de avançar na rua com seus próprios passos, e não protegido e climatizado por vidro e metal, é verdadeiramente ímpar. Existe uma relação de amor com a arquitetura e o urbanismo, uma preocupação em manter tudo aquilo vivo e bem cuidado. Creio até que se faz um povo mais unido e mais feliz. Esta é uma conquista do espaço: o espaço urbano, principalmente o centro. Sinto muito isso no Recife, com toda aquela vida pululando ao redor do Marco Zero, à beira-mar. Ali, onde a cidade nasceu, assiste-se o nascer do sol com as ondas indo e vindo, os barquinhos sendo remados e as pessoas acordando pouco a pouco. Sim, eu sou apaixonado pelo Recife. Tenho nele lembranças e sensações que guardo com muito carinho.
Outra conquista do espaço é a nossa própria. Chega-se uma hora que uma decisão é tomada: a de moldarmos o nosso próprio ninho. Começar uma casa e manter uma são tarefas homéricas, mas é nela que se reflete nossos trejeitos e manias. A roupa pendurada, o quadro na parede e a meia no chão são afirmações de que este espaço está conquistado. São os primeiros passos de uma vida inteira, cujas rédeas estão sendo passadas a nós. Tenho a sorte de ter meu cantinho e dividí-lo com pessoas que são muito especiais para mim. Achar um lugar para chamar de seu tem ficado cada vez mais difícil, vejo por minha própria experiência e de uma amiga que luta contra toda a burocracia imobiliária, mas a recompensa vale o esforço.
Mais outra conquista é do espaço pessoal, o meio que vivemos e nos relacionamos. Nem sempre é simples navegar através dele: os altos e baixos e os desafios desanimam muitas vezes, mas (continuando na analogia marítima) é preciso de um porto seguro. A família e/ou um grupo de amigos fazem toda a diferença nas horas difíceis ou nas horas festivas. Eu celebro todas as pessoas que tive o prazer de conhecer e construir histórias junto. Isto vai muito além da conquista, é o compartilhamento do espaço.
Queria expor neste post um pouco das minhas elocubrações a respeito da multiplicidade de significados de espaço, e reforçar o que James T. Kirk e Jean-Luc Picard, capitães da USS Enterprise, sempre falaram: Espaço, a fronteira final.
“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.”
Tava agora mesmo num site imobiliário, não sabia se optava por casa, apartamento ou chácara. É difícil ter que encarar algumas realidades, como a de ser estudante e não contar com um meio de transporte efetivo que me possibilite morar perto do verde. Eu queria morar com o pé no chão. Os condomínios dos apartamentos são caros e não tem varanda, casa de madeira tem cupim, moro com duas ou quatro pessoas?, se for de madeira pode dar cupim, melhor é ter quarto ou sala grande?, centro ou bairro?, perto e pequeno ou longe e espaçoso?, antigo ou contemporaneo? O espaço é tão importante, o residencial, e onde ele se localiza, o pessoal e com quem se compartilha… E a definição de algo que pode constante mudar quando não se tem fixo nada ainda na vida e tudo pode ser faz com que de certa forma, tudo seja cabível dentro de algum ponto. O importante, no final, é lidar-se bem com o que se tem. (Ou não, diria Caetano!)