Estive de mudança há uns dias atrás, como alguns de vocês sabem, e é um processo demorado de pequenas coisas que você vai lembrando que tem que levar daqui pra lá e reorganizar velhas tralhas que ficaram amontoadas em algum canto. Nessas e outras, encontrei uma miríade de pequeninas lembranças que guardei e continuo guardando.
Eu gosto de guardar coisas, e isso era o terror da minha mãe. Quando você é um postulante a pré-adolescente, esse excesso de papéis, objetos, placas e/ou coisas bobas acaba virando um pesadelo para sua mãe, que não consegue ver o quarto do filho se enquadrar em sua definição de limpeza e organização. Primeiro, comecei guardando as coisas que me pareciam mais óbvias: cartas de amigos. Cartas trocadas em aula, amores enviados pelo correio, perfumes que ficam para sempre na nossa memória. É claro que eu ia guardar isso. Logo em seguida, comecei a ter uma carteira, e ali começaram a surgir os ingressos de cinema e outros espetáculos e eventos que eu ia. Já que estava na carteira, por quê não acumular junto com as cartas? Uma lata de biscoito foi eleita e meu pequeno baú começou. Guardei de tudo. Panfletos, raspas de madeira, pequenos papéis com sorrisos, papel de bala, objetos indecifráveis… Você podia me pedir para guardar qualquer coisa (como aconteceu) e eu cumpria e devolvia anos mais tarde (como aconteceu).
Uns anos atrás, fiz uma limpeza e joguei fora coisas que não tinham mais significado ou que simplesmente o tempo fez desaparecer, o que é uma pena. Mesmo as lembranças materializadas em objetos se vão embora e temos que, finalmente, nos separar delas.
Até hoje eu guardo coisas, e quando encontro acidentalmente uma delas um sentimento bom invade meu estômago. É bom sentir que você construiu algo, que possui histórias para contar: eu acredito que este é um bom sentido para se ter na vida. Esses pequenos objetos que guardo são as provas de que as menores coisas podem mudar todo um dia.
Eu te entendo… mudar de país foi uma volta ao passado total! E um exercício de desapego… tive que me livrar de pelo menos metade. Mas é libertador também, saber que a memória fica com você, muitas vezes sem a tranqueirinha que a gente guardou por muito tempo.
Sei como é, não consigo me desfazer de nada, nem de paedaço cortado de papel e até cartas da época em que ainda se enviava isso. De vez em quando bate uma nostalgia e eu volto a lê-las.
Acho que sou assim tb, tenho caixas de lembraças de cada viagem que fiz e caixas com cartas, ingressos de shows e qualquer coisa que me lembre determinados momentos (de folhas secas à pedrinhas achadas no chão). Até agora creio não ter me desfeito de nada e muitas vezes evito olhá-las; acredito, entretanto, que não posso crescer e deixá-las para trás (talvez seja um medo de crescer e esquecer?).