Desde pequeninuxo, meu sonho é ir para Marte. Não sei o que o planeta vermelho tem que me atrai tanto, afinal a superfície é de óxido de ferro e o céu é vermelho, além de ter uma atmosfera que nem vale muito a pena comentar a respeito. Por causa disso, eu li e reli inúmeros livros sobre colonização de outros mundos e viagens espaciais que encheram a minha cabeça de imagens e sonhos.
A inovação espacial humana freou um pouco nos anos 80 e principalmente nos 90. Já que não há mais superpotência para concorrer, vamos enviar sondas, rovers e satélites para outros planetas, asteróides e cometas! É a chamada exploração científica do espaço. Ela tem seus prós: trazem um volume enorme de informações a um custo baixo e sem grandes dores de cabeça. Com isso, temos o Hubble, os rovers marcianos, as sondas de espaço profundo e muito mais. Eles trouxeram um volume imenso de informações que revolucionou nossa visão do que é o Sistema Solar e o Universo: obtiveram evidências do Big Bang, inferiram planetas orbitando em volta de outras estrelas, descobriram água em um sem-número de lugares, além das moléculas básicas da vida em cometas. Sim, os caras são feras, mas acho que estamos perdendo algo aqui.
Nos anos 60, quando ir ao espaço era algo realmente novo e ousado, as pessoas se reuniam para torcer pelos astronautas e cosmonautas que arriscavam suas vidas para ir mais longe. Imagine só, você sair da atmosfera e ver o planeta lá de cima! Dar voltas e voltas no globo cruzando fronteiras, oceanos, guerras e festas. Lá de cima, você percebe que as linhas que colocam nos mapas para separar os países realmente não existem, e quão frágil é aquele ponto azul.
Senti-me inspirado e traduzi um texto de Carl Sagan escrito a respeito da célebre foto da Terra tirada pela Voyager 1 em 1990 quando estava na fronteira do Sistema Solar, que foi chamada de Pale Blue Dot:

Vê aquele ponto? É a Terra.
“Olhe de novo para aquele ponto. Aquilo é aqui. Aquilo é nosso lar. Aquilo é a gente. Naquilo está todo mundo que você ama, todo mundo que você conhece, todo mundo que você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, que já viveram suas vidas. O conjunto de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões confiantes, ideologias, e doutrinas econômicas, todo caçador e coletor, todo herói e covarde, todo criador e destruidor de civilizações, todo rei e plebeu, todo casal jovem apaixonado, todo pai e mãe, criança esperançosa, inventor e explorador, todo professor de moral, todo político corrupto, todo “superstar”, todo “líder supremo”, todo santo e pecador da história de nossa espécie morou lá – em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno na vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, na glória e no triunfo, eles pudessem se tornar mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas intermináveis crueldades cometidas pelos habitantes de um canto deste pixel nos parcamente distinguíveis habitantes de um outro canto, quão frequente eram seus desentendimentos, quão ansiosos eles estavam para matar um ao outro, quão fervente eram seus ódios.
Nossas posturas, nossa imaginada auto-importância, a ilusão de que nós temos uma posição privilegiada no Universo, são desafiadas por este pálido ponto de luz. Nosso planeta é um cisco solitário na grande escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda a sua vastidão, não há indícios de que virá ajuda de algum outro lugar para salvar-nos de nós mesmos.
A Terra é o único mundo conhecido até agora a abrigar vida. Não há nenhum outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para o qual nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Habitar, ainda não. Goste ou não, pelo momento a Terra é o lugar onde nos afirmamos.
Foi dito que a astronomia é uma experiência que trás humildade e constrói caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da loucura dos conceitos humanos do que esta imagem distante de nosso pequenino mundo. Para mim, sublinha nossa responsabilidade de lidar mais gentilmente um com o outro, e a preservar e celebrar o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”
O novo espírito pioneiro é impulsionado pelas viagens espaciais, levando pessoas a enfrentarem perigos mortais pelo avanço da raça humana e sendo lembrados por terem arriscado suas vidas para que possamos dizer “chegamos lá”. Viajar pelo espaço é despertar o melhor de nós mesmos e aprendermos a trabalhar juntos para enfrentar situações e ambientes que sequer conhecemos. Isso nos faz sentir vivos e muito mais humanos.
Uma vez li uma solução para colocar uma pessoa em Marte em curto prazo: não se preocupar em trazê-lo de volta. Lança-se habitats, estufas, unidades de processamento de água, ar, enfim, tudo para que ele sobreviva lá e mantenha-se em constante contato com a Terra. Um voluntário iria e habitaria até morrer o planeta vermelho. A presença humana lá nos impulsionaria constantemente a desenvolver a tecnologia espacial para que possamos continuar explorando. Além disso, um fato inusitado e que pode render fatos interessantíssimos é que essa pessoa teria visões únicas sobre os acontecimentos daqui da Terra. Ela nos mostraria o quão absurdo algumas brigas ou assuntos são e chegaria até, quem sabe, a soluções que enfrentamos por aqui. Seria uma oportunidade de visão única da humanidade sobre si própria.
Para concluir este post incrivelmente gigante e que demorou algumas horas para ficar razoalmente como eu queria, digo que ir ao espaço é achar soluções para a Terra. Reciclagem, economia de energia e materiais, convivência, resolução de conflitos, teste de novas organizações sociais, tudo o que você imaginar é possível. É um grande playground de sonhos. Devemos cobrar de nossos líderes a exploração humana do espaço, e não apenas científica. Muito mais do que dar nomes e características aos corpos celestes é dar sentimentos e histórias, isso sim vale a pena.